Os operários pretendem obter o máximo possível, os patrões procuram pagar-lhes o mínimo possível. Os primeiros estão dispostos a associar-se a fim de fazerem subir os salários do trabalho; os segundos a fim de os obrigarem a descer. Não é, contudo difícil prever qual das partes, em circunstâncias normais, levará sempre a melhor nesta disputa e obrigará a outra a aceitar os seus próprios termos. Os patrões, sendo em menor número, têm muito maior facilidade em associar-se, além disso, a lei autoriza, ou pelo menos não proíbe as suas coligações, enquanto proíbe as dos trabalhadores. (Adam Smith Capítulo VII, Livro I – A Riqueza das Nações, 1776)

A mídia brasileira tem cumprido papel fundamental na divulgação rotineira, para não dizer exaustiva, da necessidade das reformas estruturais na economia, principalmente, a Reforma Trabalhista já transformada em lei (Lei 13.467/2017) que entrará em vigor em novembro deste ano temeroso. A agenda de contrarreformas se consolida com a Reforma Previdenciária. Cabe ressaltar que a agenda reformista, não é uma novidade para os brasileiros, tratada desde 1990, como instrumento que levaria o Brasil ao primeiro time das nações no mundo globalizado.

Os comentaristas e analistas econômicos repetem como arapongas em som estridente, o rombo previdenciário, o alarmismo contra o déficit crescente, os privilégios de castas de trabalhadores, atacando sindicatos e seus movimentos, como ocorreu na convocação de Greve Geral de 28 de abril de 2017. As diversas pesquisas junto à opinião pública brasileira contradizem o ideário vendido como salvaguarda para retomada do crescimento econômico. O instituto Ipsos capturou a percepção dos brasileiros, mostrando que 95% dos brasileiros avaliam que o país está no rumo errado, e, 84% acham o governo atual ruim e péssimo (eram 43% no início do mandato tampão de Michel Temer). Em pesquisa recente realizada pelo site Poder360, a rejeição continua alta, com apenas 3% dos brasileiros apontando o governo com bom/ótimo, e, 95% com ruim/péssimo e regular (79% ruim/péssimo e 16% regular). A desaprovação é ampla, geral e irrestrita.

No campo econômico, os governistas festejam sob bases falsas, o nível de flutuação do emprego, com geração de apenas 35.457 vagas em agosto/2017, garantindo um crescimento de apenas 163.417 postos de trabalho no ano, representando expansão de 0,43% em relação ao estoque de dezembro de 2016. Nos últimos doze meses, a redução alcança a cifra de -544.658 postos de trabalho, indicando uma retração de -1,40% no contingente de empregados celetistas no País. É um cenário devastador para inclusão de universo de desempregados que ultrapassa a casa dos 14 milhões de trabalhadores/trabalhadores.

Neste contexto de crise conjuntural duradoura na economia brasileira, com retomada lenta e gradual de alguns indicadores, notadamente inflação e controle dos gastos públicos, fruto de políticas monetárias ortodoxas que impedem um avanço robusto do PIB, com aumento do nível de emprego e renda, as propostas das facções partidárias que tomaram o Estado brasileiro de assalto, e a imposição de uma agenda regressiva, com redução dos direitos sociais e cidadania, afetando o presente e futuro da classe que vive do trabalho.

Enquanto a mídia monopoliza o discurso da agenda reformista deste governo corrompido, “manufaturando” a opinião pública, construindo falsos consensos diante da perversidade das transformações no pacto social vigente que provocará resistências frente à precarização da vida, não restará outra alternativa para o movimento sindical, senão, resistir e lutar.

As tarefas ingentes na atual conjuntura brasileira para o sindicalismo estão no combate das desigualdades, contra a redução do papel do Estado na fiscalização sobre as condições do trabalho, nos obstáculos criados para o acesso dos trabalhadores à Justiça do Trabalho, no impedimento das formas de contratação precárias. O cenário para o confronto é iminente, apesar da letargia dos movimentos sociais e defensiva do sindicalismo brasileiro, visto que, a agenda de contrarreformas destrói o lastro de cidadania da Constituição de 1988, abandonando o interesse público, tal como já vaticinou Marx, “A crueldade é o caráter das leis ditadas pela covardia, pois a covardia só consegue ser enérgica sendo cruel. O interesse privado, sempre é covarde.”

Eis o momento de o movimento sindical dar o torque para acelerar a resistência contra a inércia social no cenário de reformas produzidas por forças políticas e empresariais que atentam contra o interesse público da sociedade brasileira.

Fonte: Por Eduardo Guerini