“A única coisa em que eu creio é que devemos ter a capacidade suficiente para destruir opiniões contrárias baseadas em argumentos ou, se não, deixar que as opiniões se expressem. Opinião que temos de destruir na porrada é opinião que leva vantagem sobre nós. Não é possível destruir as opiniões na porrada e é isso precisamente o que mata todo o desenvolvimento livre da inteligência…” (Che Guevara. Pequeno Livro de Pensamentos de Che,1999, p. 19)

A política é tempo e movimento, tal como as estações que sucedem com o passar dos anos. Comumente se diz que a transição de posições dos astros e planetas indicam mudanças, em tal momento, o tempo muda, o clima se altera, os humanos, dada suas capacidades de adaptabilidade seguem a vida sobrevivendo as intempéries naturais, condicionados a resiliência milenar. Porém, nossas construções sócio-políticas são frequentemente assoladas por crises, muitas delas, indecifráveis ao sujeito comum, mas ele sobrevive magistralmente, na alegria e na tristeza, na pobreza e na riqueza.

No Brasil, a crise político-institucional continua produzindo incertezas que forçosamente serão superadas, com ou sem intempéries. O tempo do governo de Michel Temer continua sob nebulosas turbulências, fruto de um arranjo político fisiológico-corporativo-patrimonial. A paralisia decisória somada à debilidade do presidencialismo de coalizão, resultado do afastamento de lideranças políticas e seus partidos dos movimentos sociais, provocou uma cisão entre representantes e representados, governantes e governados. Os poderes incumbentes de nossa republiqueta não mantém a coesão molecular, todo movimento gera uma reação adversa que eleva a sinergia opositora causando uma onda de incertezas políticas, sociais e econômicas.

O tempo de um governo é definido por mandatos eletivos, alternância de coalizões políticas, e, principalmente, capacidade de montar uma agenda que se transforma em marca de seus líderes políticos. Inegavelmente o mandato, pós-impeachment, de Michel Temer (MDB) findou, pela inépcia e carência de conteúdo ético-político, ser rejeitado pela maioria da população (70%), com aprovação na margem de erro estatístico, não é uma tarefa fácil.

Os agentes de mercado reposicionam suas expectativas para o crescimento lento e gradual da economia (2,75% segundo o Relatório Focus, 2,3% segundo FMI). O festejado otimismo com a aprovação da contrarreforma trabalhista naufragou com a evidência do governo não levar a cabo a contrarreforma previdenciária. O instinto de sobrevivência dos parlamentares na curva das eleições de 2018 emperrou a agenda, ainda que a massiva campanha da mídia monopólica tentasse empurrar “goela abaixo” da sociedade brasileira, uma necessidade imperiosa pelas forças das circunstâncias. A energia de ativação reativa e limitada dos movimentos sociais, especialmente, o sindicalismo brasileiro, se transformou em barreira energética que poderia incendiar as pretensões de muitos candidatos e partidos, incinerando-os.

Os resultados de emprego formal de acordo com o CAGED, divulgados recentemente, demonstraram uma vez mais, que seguimos para uma sociedade de desempregados estruturais submetidos às ocupações informais. A flutuação de empregos formais com saldo irrisório de 56.151 (0,15%), em março de 2018, e, 223.637 (0,59%) nos últimos 12 meses, é comemoração de Pirro resultado da política econômica ortodoxa-monetarista em prol dos agentes de mercado.

Seguimos, tal como o movimento da elíptica que cruza o equador celeste, para nosso ponto vernal, num outono político, projetando um rigoroso inverno econômico-social. Falta-nos energia de ativação, uma química que rompe a barreira do tempo e seus movimentos, produzindo uma aurora boreal utópica!!

Por Eduardo Guerini