Por Eduardo Guerini

“O mundo ao avesso gratifica o avesso: despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de escrúpulos e alimenta o canibalismo. Seus mestres caluniam a natureza: a injustiça, dizem , é a lei natural.” (Eduardo Galeano. De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso. 1999)

No final de fevereiro, após o carnaval, festa sagrada do povo brasileiro, as fantasias são esquecidas no armário, os carros alegóricos desmontados para um desfile vindouro, as escolas retomam as atividades. Os professores, funcionários e alunos, em todos os níveis retornam às aulas normais. As escolas infantis, de ensino fundamental e médio, faculdades, centro universitários e universidades, públicas ou privadas, agitam os corredores e pátios. As expectativas geradas giram em torno de inovações, com desejos que os resultados sejam promissores.

No Brasil, esta republiqueta sem projeto e sem norte, somos guiados por gestores e representantes parlamentares que de quatro em quatro anos vendem a educação, como melhor remédio para as agruras de uma pátria desigual e excludente. Noutro polo, os magistrados anunciam greve para garantir um auxílio-moradia de R$ 4,3 mil mensais, um penduricalho nos polpudos salários em um país de miseráveis. Os professores festejam o aumento do seu piso nacional, de R$ 2.455,00, por 40 horas mensais. Se comparado com o auxílio moradia dos magistrados, os professores do setor público, valem meio penduricalho.

Rotineiramente, os profissionais da educação retornam de seus recessos tomados por lembranças do ano que passou. As turmas, os colegas e as aulas ministradas. A memória é algo que a história não apaga. Porém, no ano de 2017, as notícias de final de mais um período letivo foram manchadas de lágrimas e decepções, as grandes corporações de educação superior, as universidades – mesmo as comunitárias, lançaram mão do velho expediente: a demissão em massa, no apagar das luzes e na véspera dos festejos natalinos. Os burocratas da gestão de resultados adotaram a velha estratégia, apagar a lembrança dos alunos e colegas de trabalho. Para evitar os protestos, nada melhor que passar a guilhotina quando as salas de aula se esvaziam.

E assim, a memória afetiva de alunos e professores sofre um apagão acadêmico, em prol das novas regras trabalhistas impostas por uma reforma contra professores e funcionários no mundo educacional, como, se estes fossem prestadores de serviços. Todos irmanados sob o domínio da tirania financeira do lucro. As mensalidades aumentam, os custos da folha de pessoal reduzem, a qualidade é uma peça ficcional para os burocratas acadêmicos da gestão por resultados. Os professores são descartáveis, os funcionários são substituíveis, os alunos são clientes, subsumidos na velha estatística da necessidade premente, do ajuste inevitável aos novos tempos.

Na volta ás aulas, a hipocrisia social da normalidade sofrente, determina os resultados que colhemos da desvalorização da educação e de seus profissionais, em todos os níveis. Uma geração futura de brasileir@s que comparados com países desenvolvidos levará 260 anos para adquirir proficiência em leitura e 76 anos para operar o básico da matemática, segundo a OCDE.

Quando os profissionais de educação são tratados como penduricalho, em condições de trabalho precárias com salários de mendicância, os resultado são lógicos: uma geração de analfabetos funcionais governados por corruptos de ocasião sob a batuta de magistrados insensíveis!