“O “pelego” era uma espécie de subclasse do funcionalismo público cuja tarefa consistia em levar as políticas do Ministério do Trabalho até as fileiras operárias. Ao limitar sua atuação à esfera faz vantagens legais, esse tipo de dirigente tenderia a reproduzir a dominação paternalista, transformando-se em uma barreira para a modernização do mercado de trabalho no país.” (Ruy Braga. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. In: o fatalismo dos fracos. 2012, p. 109)

Os ataques desmedidos de Michel Temer contra supostos privilégios na aposentadoria de servidores públicos e privados, apontando a causa da “indisposição social”, não passa de uma chicana política no governo afundado em negociatas corrompidas, orquestradas nos corredores palacianos, para garantir uma réstia de governabilidade diante do caos social, político e econômico. O Brasil está à deriva, sem projeto ou direção.

O descalabro das contas públicas, com sucessivos déficits, resulta de renúncias e subsídios fiscais ordenados pelo próprio Presidente da República e seu corpo ministerial. Inegavelmente, o déficit público brasileiro não nasceu no Governo Temer, mas se aprofundou no cenário da maior recessão econômica republicana dos últimos 100 anos, sendo potencializado para salvaguardar um mandato presidencial envolto em denúncias de corrupção e formação de quadrilha.

As quadrilhas partidárias atuantes no Executivo e Legislativo se comportam de forma errática, ora desejam a queda de Temer, ou, no momento seguinte, acham melhor que a pinguela siga até as eleições de 2018. No Judiciário, um misto de protagonismo imperativo, protagoniza confrontos e instabilidades entre defensores dissimulados ou assumidos na mantença do atual governo. A insensibilidade sociopolítica dos poderes republicanos no Brasil é avessa aos anseios da maioria da população, exposta em diversas sondagens. O lastro da cidadania e pacto social constituinte em 1988 é rasgado e vilipendiado por governantes que elevam a polarização social.

A política brasileira é regulada por irracionalidade e misticismo, restando a população, a tarefa de se transformar no cidadão de ocasião no processo decisório, um idiota funcional que legitima o processo democrático, pelo voto direto. A falta de uma mobilização popular é marca da falência da cidadania brasileira, fruto do pessimismo que contaminou as esperanças na pátria brasileira.
Entretanto, fica evidente neste momento conturbado da conjuntura brasileira, em que, as reformas propostas não produzirão resultados significativos, propaladas nas profecias auto anunciadas da equipe econômica e sua política ortodoxa, com privatizações e concessões de serviços públicos, flexibilização no mercado de trabalho e reforma previdenciária. Há nessa perspectiva uma variedade considerável de arranjos, que partem e variações possíveis no âmbito da desejosa “eficiência e justiça de mercado”, atribuindo ao mercado à função de distribuição das vantagens econômicas.

No estertor da coalizão governista que age na manutenção da velha cultura política do “toma lá, dá cá”, apoiada em parlamentares fisiológicos, pragmáticos e oportunistas, sem qualquer norte ou direção para o Brasil, se ratifica o fosso abissal entre governantes e governados, representantes e representados, causa da grave crise de representatividade dos partidos políticos.

No enfraquecimento da capacidade de articulação política, os agentes de mercado euforicamente brindam a desgraça governista, precificando sua manutenção, exigindo o aprofundamento das reformas. Os mercados não contam com a queda de Michel Temer por denúncias de corrupção e os impactos políticos de tal enredo fatídico. O que importa para o sistema financeiro e seus agentes, é o cumprimento da cartilha reformista, permitindo que se substabeleça implicitamente a ideia do “bom corrupto”, ou, na velha cantilena malufista “rouba, mas faz”.

O Presidente Michel Temer e seus comparsas da aliança governista bradam contra as denúncias enviadas para julgamento na Câmara dos Deputados, alegando uma “Marcha da Insensatez”, fruto de perseguição de membros do Ministério Público e Procuradoria Geral da República. Os agentes de mercado tendo precificado o “custo da manutenção” de Temer no poder, não tem a menor preocupação da disputa entre os insensatos e insanos que atuam na política brasileira. Afinal de contas, o que importa são os resultados esperados e lançados pela equipe econômica, que estabiliza todos os poderes republicanos, permitindo o Brasil atravessar o “rubicão” da crise.

No conturbado cenário político e econômico, a sociedade brasileira continua refletindo em paralaxe, distorcendo a realidade com o realismo fantástico, em nebulosas estatísticas sobre crescimento e emprego, que não passam de mero desejo de um grupo que se encastelou no poder. Nos ataques do governo aos servidores públicos e privados diante de mais uma reforma que retira direitos, nada melhor que saber quem está por trás da crítica e apoio a reforma da Previdência, o sistema financeiro, beneficiário direto, com oferta de pacotes de previdência privada. Tal como Schopenhauer afirmara certa vez, “Nos ataques, o senhor Anônimo é, sem dúvida, o senhor Patife.”

Fonte: Por Eduardo Guerini